Casa sobre rodas

Família  Hentschke,  que frequenta o camping do Rio Vermelho desde a década de 70 e já viajou por todo Brasil com seu trailer

Pode parecer estranho para alguns, mas tem gente que sai de casa, viaja centenas de quilômetros para ir para outro lugar e se sentir super, veja só, “em casa”.  E às vezes é porque está mesmo! Ainda que seja uma casa móvel. É por isso que há décadas algumas famílias desembarcam no Campíng do Rio Vermelho religiosamente todos os verões.  Faça sol, faça chuva, estejamos nós de portas abertas, ou não.

Os Hentschke, de Porto Alegre, estão na lista. Começaram a frequentar esses gramados em 1976 e nunca mais pararam. Hoje, eles trazem a casa a tira-colo: um trailer enorme, com direito a quarto para o casal e para os netos, cozinha, vários armários, sala, banheiro e flores sobre a mesa da varanda. Mesa, aliás, sempre pronta pra receber os amigos do camping com um bom café para regar as tardes e noites com muitas histórias e ótimas risadas.

Na estrada

Nem sempre foi assim. Antes da aquisição de uma casa móvel, o casal Arni e Rosa caía na estrada com uma barraca tamanho família, quatro filhos e muita disposição pra conhecer o Brasil. Viajar com bebê? Moleza. “É só ter um berço portátil para colocar na barraca”, garante Rosa. O neto mesmo já encarou a vida de campista com seis meses. E olha que viajar para esse pessoal não é só aproveitar o feriado prolongado do Carnaval. Enquanto os filhos eram crianças, a família já rodou de Porto Alegre a Pernambuco em uma aventura de 55 dias direto.

De tanto viajar, hoje o casal tornou consultor na área de turismo de cruzeiros nacionais e internacionais, mas nunca dispensou seu cantinho cativo no Camping do Rio Vermelho. “O campismo é um estilo de vida. A gente ama estar em contato com a natureza, confraternizar com os amigos, sair da rotina. Eu me sinto mais em casa aqui, do que na minha casa de tijolo”, conta Rosa.

Depois de passar incontáveis reveillons, bodas de casamento, aniversários e carnavais no camping e fazer amigos para toda vida, a temporada por aqui virou uma tradição inquebrável.

A ocupação

E tradição é tradição. Em 2008, quando a área ficou fechada por falta de gestores, os Hentschke se juntaram aos Kukis, um assíduo casal de Buenos Aires, e ocuparam o camping. Isso mesmo. Articularam o movimento dos “sem camping”, chegaram e resolveram abrir os portões por conta própria. Depois de entrarem, eles assumiram uma gestão temporária, faxinaram banheiros e recepcionaram outros campistas até que as autoridades tomarem as providências. Entre 2012 e 2013, o camping foi novamente fechado por conta de falta de estrutura. Novamente eles não deram trégua. Pressionaram autoridades, políticos e a imprensa. “Por isso a temporada de 2014 é motivo para muitas comemorações”,  conta Arnold Keller, de Buenos Aires.

Los Kukis

O Casal de argentinos frequenta o camping há 28 verões com seu trailer
O Casal de argentinos frequenta o camping há 28 verões com seu trailer

Junto com a esposa Olga Toledo, ele forma a famosa dupla Los Kukis, já bastante conhecida no Camping. Há 28 verões eles chegam por aqui de mala, cuia e trailer. “Nos encantamos por essa ilha quando conhecemos. Nunca mais conseguimos deixar de vir”, conta Arnold, durante uma sessão de cinema ao ar livre que ele improvisou no Camping para exibir fotos e vídeos de uma vida sobre rodas. Impossível não sentir uma inveja boa. Além da simpatia contagiante, o casal exibia em cada nova imagem na tela aquele tipo de coisa que a gente sonha não parar de fazer nunca na vida: viajar, conhecer lugares e pessoas, celebrar os encontros com amigos queridos em lugares queridos.

Os trailers

Se a curiosidade bater, os veteranos do Rio Vermelho estão com suas casas de porta abertas, pra apresentar para os campistas. Por dentro da casa sobre rodas, tudo também varia conforme a vontade do proprietário e o espaço interno: os armários são sempre embutidos, os móveis são fixos e há geladeira, fogão, chuveiro a gás, vaso sanitário e o que quiser, como em uma casa ou um barco. Segundo os proprietários, é preciso gostar, ter calma, não ter pressa, e aceitar as condições da natureza, como chuvas e ondas de muito calor. Em troca, o trailer oferece uma janela para o mundo.