A arte da reciclagem

Família de catadores de materiais recicláveis

Toda segunda-feira, a gente pode esperar. O senhor Ismael Silva não falha. È só abrir o sol que ele chega ao Camping do Rio Vermelho com sua esposa Romilda Leme a bordo de um meio transporte peculiar: sua charrete prontinha para levar dezenas de kilos de materiais recicláveis separados pelos campistas e recolhidos pela equipe do Cepagro.

Em tempos em que o planeta luta para reverter o ritmo do aquecimento global, Ismael e sua família integram uma nova classe de trabalhadores advindos da economia informal que tem conquistado o respeito da sociedade. Tirando seu sustento dos resíduos urbanos, os catadores de recicláveis se somam em sua empreitada aos operários das indústrias especializadas para transformar lixo em sustentabilidade. Em geral, eles são responsáveis por uma importante parcela da coleta dos materiais reaproveitáveis das cidades, já que o serviço de coleta seletiva do poder público ainda é bastante tímido.

O impacto dos resíduos

Trecho da “Carta da Terra”, uma declaração de princípios éticos fundamentais divulgada no mundo todo

No Camping, metade do lixo recolhido é o orgânico, ¼ é reciclado e mais ¼ é rejeito. Nesse caso, apenas o rejeto vai para os aterros sanitários.  75% do material acaba sendo reaproveitado e fomentando uma economia criativa. Nos domicílios, nem sempre é assim. Pesquisas apontam que, no geral, 1/3 de todo lixo gerado por uma pessoa é composto por embalagens aparentemente inúteis. Além de consumir água e energia elétrica na produção, elas ainda contaminam o ambiente e degradam recursos naturais. A pior das embalagens é o plástico, que leva séculos para se decompor. Esse material foi inventado há oitenta anos e desde então entope bueiros, causa inundações e desemboca no oceano, matando animais engasgados. Além disso, ele fomenta a indústria do petróleo, a mais poluente do planeta. A melhor alternativa para evitar seu impacto é simples: não consumir. Se o dito cujo for inevitável, a solução é separá-lo e contribuir com a economia da reciclagem, que além de poupar recursos naturais do planeta, colabora com o sustento de famílias como a do senhor Ismael. Há 10 anos, ele vive dos materiais que recolhe em casas e comércios. “Nas casas, a maioria das pessoas não separa, é difícil você pegar um saco só com recicláveis. Temos que procurar o que serve. Aqui no Camping, os meninos já deixam tudo separado.”

A cidade que queremos

Além de nos preocupar com a economia da reciclagem, quando pensamos sobre os resíduos que geramos, vale a pena pensar em que cidade queremos para nós e para nossos filhos, qual a qualidade da água que queremos beber e dos alimentos que pretendemos consumir. Isso porque tudo que enviamos para os aterros sanitários gera gases e líquidos tóxicos que se infiltram nos solos e lençóis freáticos. Isso obviamente se reflete na produção de alimentos que vão parar nas nossas mesas e nas águas que escorrem de nossas torneiras